
150 dias. Meu Deus só isso. Era muito pouco tempo. O lago do parque era perfeito pra passar esse meu tempo pensando e vendo os cisnes flutuando. Quem me dera ser um deles. Ter essa leveza e ficar por cima dos problemas. Você diria que tipo de problemas um garoto pode ter, certo? Bom, a verdade é que o médico errou e foram exatos 128 dias. Na madrugada do 129º dia meu irmão teve uma parada cardio-respiratória. Ele tinha câncer. O que podia eu fazer? A sociedade fanática por tragédias parou o que estavam fazendo e vieram no hospital. Tarde demais. E quando digo sociedade refiro ao meus parentes. Em especial, meu pai. Como pode uma pessoa chorar o velório do filho se antes quando estava vivo nem vinha fazer visitas. Quando descobrimos que Caio tinha câncer ele veio, mas pra pagar o tratamento, correu embora e nunca mais se ouviu falar. Achei que nunca o veria de novo, e estava bom assim, mas ele voltou agora, e acompanhado de outra diferente. Nem sei quem o avisou. Deve ser mamãe, ela ainda gosta dele. Ridículo. Mas nada se pode fazer. Mesmo forte como ela… é difícil. Chorar eu não chorei. Não sei por que. Talvez não tenha entendido ainda que não vou voltar para o hospital depois da escola, não vou precisar dormir na poltrona do quarto do Caio, não vou poder lhe contar histórias nem dizer que está tudo bem. Mas de algum jeito, eu não o perdi. Eu sei que ele está comigo. Enquanto durou, durou. Mas agora vejo que não tenho que chorar pela falta dele. Mamãe chorou rios. Talvez eu tenha que esperar a chuva, e ela não tarda a chegar.
“Eu só quero que você saiba
Que estou pensando em você
Agora e sempre mais
(…)
E como eu te quero tanto bem
Aonde for não quero dor
Eu tomo conta de você
Mas te quero livre também
Como o tempo vai e o vento vem
— - Marisa Monte
“Minhas mãos estão atadas e eu afundo na lama. Não posso ir até você e você me deixou aqui sem esperança. Não posso mais estar ao seu lado, não posso mais te apoiar. Você criou um vazio e ele se encheu de arrependimento. Eu aprendi a viver e sair de onde estava. Foi difícil. Dei meus primeiros passos sozinha e sem você eu sobrevive, quando um dia vi você numa esquina. Não me importei, mas você insistiu em voltar. Eu sabia que jamais eu seria sua sombra outra vez. Me fortaleci e percebi que você não faz falta, mas será que você percebeu o erro que cometeu? Deixando cacos por onde passava? Quebrando promessas? Coletando os corações partidos? Você tão frio não me merece, não merece ninguém. Não importa o quanto insista, o quanto pergunte aos meus amigos, eu não estou disponível. Quem você pensa que é?
“…era uma vez.” e terminou o epílogo de todos os desejos e sonhos que ela pôs no papel. Realizar não realizava, então o jeito foi deixar escrito, como uma lembrança, uma esperança. O tempo juntos não foi desperdício, mas não deu em nada, e por isso o que os reuniu, agora não existia mais. O passado ficou, mas a expectativa se aviva a cada esquina. A cada novo rosto , mais e mais ela se iludia. Fechou o coração pelo menos. Selecionou melhor quem ela deixava entrar. Guardou no cofre as folhas de seus sonhos e preparou o caminho para seguir em frente. Ela queria mudar tudo mas por enquanto deixou estar.